

A palavra lúpus significa lobo, e refere-se à mancha vermelha que surge no rosto, semelhante a uma borboleta, lembrando as manchas brancas que o lobo tem próximas ao focinho.
O Lúpus Eritematoso Sistêmico (o qual chamaremos aqui somente de Lúpus) é uma doença autoimune inflamatória e crônica, que afeta principalmente mulheres dos 20 aos 40 anos de idade.
O sistema imune é a parte do corpo responsável por nossa proteção contra infecções causadas por vírus, bactérias ou outros agentes indesejáveis. Quando temos uma infecção, ou seja, somos invadidos por estes microorganismos, nosso sistema imune consegue reconhecê-los, e começa a produzir anticorpos e células que irão nos proteger. Estes anticorpos e células são os nossos soldados de defesa.
Nas doenças autoimunes, por algum motivo, ocorre uma falha no nosso sistema imune. Ele passa a identificar algo que é parte do nosso próprio corpo como uma ameaça, e começa a produzir anticorpos e células contra nós mesmos. Estes anticorpos são chamados de autoanticorpos. Inicia-se então, um ataque do sistema imunológico do indivíduo contra ele próprio. É como se fosse uma autodestruição. No Lúpus, estes autoanticorpos e células podem atacar a pele, as articulações, os rins, os pulmões, o coração, o cérebro, os glóbulos vermelhos, os glóbulos brancos, as plaquetas e outras estruturas, causando vários problemas.
Costumo dizer que quando falamos de Lúpus, estamos falando de várias doenças com um único nome. Isto, porque podemos ter pacientes apresentando quadros muito variáveis, e todos eles recebendo o diagnóstico de Lúpus. A maioria irá apresentar somente manchas típicas na pele e dores articulares, mas uma parte dos pacientes poderá apresentar alterações renais, cardíacas, pulmonares, ou ainda neurológicas como convulsões e alucinações. Aproximadamente 50% dos pacientes apresentam doença leve e 17%, uma doença mais grave. Os demais pacientes apresentam quadros moderados.
O Lúpus é uma doença sistêmica. Febre, perda de peso, aumento de gânglios no pescoço, fraqueza e fadiga podem estar presentes.
Também é no sangue que encontraremos os autoanticorpos, sendo o mais comum o FAN (Fator Anti-Nuclear). O FAN está presente em quase 100% dos pacientes com Lúpus, e significa que o sistema imune está fabricando anticorpos contra o próprio indivíduo. O FAN não aparece somente no Lúpus. Várias doenças autoimunes cursam com a produção deste autoanticorpo, e pode estar presente inclusive em pessoas normais. Frente a um exame de FAN positivo, uma avaliação criteriosa deve ser feita para sabermos se ele está associado ou não a alguma doença.
O diagnóstico do Lúpus é feito através da análise de vários fatores, como os sintomas apresentados pelo paciente, as alterações detectadas em um exame físico detalhado e alterações observadas em exames laboratoriais e de imagem. É como se montássemos um quebra-cabeças para dizermos se o indivíduo tem a doença.
A causa do Lúpus não está completamente esclarecida. Sabemos que muitos fatores podem estar envolvidos, como genética, hormônios, luz ultravioleta (luz solar), tabagismo, infecções causadas por vírus e o uso de algumas medicações.
A principal hipótese é a de que uma pessoa geneticamente predisposta possa sofrer a ação dos fatores previamente citados, e estes funcionarem como um gatilho para o desenvolvimento da doença. Além disso, devemos lembrar que o Lúpus pode estar associado a várias outras doenças autoimunes, como o diabetes e as doenças da tireóide.
Uma dúvida muito comum é se familiares de pessoas com Lúpus podem desenvolver a doença. Como o fator genético está envolvido, parentes, principalmente de primeiro grau, como filhos e irmãos de pacientes com Lúpus, têm um risco mais elevado de ter a doença quando comparamos com a população geral.
Durante muito tempo foi dito que pacientes com Lúpus não poderiam engravidar devido ao risco trazido pela gestação à paciente. Mas, atualmente, com o avanço dos estudos, este conceito mudou. Pacientes com a doença controlada por bastante tempo podem engravidar, mas necessitam de um seguimento rigoroso. Frente ao desejo da mulher lúpica em engravidar, faz-se necessária uma boa conversa com o reumatologista.
Uma pergunta feita por quase todos os pacientes é se o Lúpus tem cura. Infelizmente a resposta é não. Mas, os tratamentos hoje utilizados podem controlar a doença, fazendo com que o paciente tenha excelente qualidade de vida.
Existem alguns cuidados que devem ser tomados por todos os pacientes, e incluem o uso do protetor solar regularmente, o uso de métodos anticoncepcionais adequados, a atenção para a ocorrência de infecções, e o controle adequado de outras doenças que podem estar presentes como hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemia e obesidade.
Já o tratamento medicamentoso deve ser individualizado e depende de quais órgãos estão sendo afetados. Mas, uma droga é certa e indicada a todos: a cloro quina ou hidro xicloro quina. Esta medicação tem papel fundamental no tratamento do Lúpus e só não será usada se existir alguma contraindicação bem fundamentada.
Outras drogas usadas com frequência, especialmente nos momentos de atividade da doença (momentos em que o Lúpus está acordado) são os corticosteóides, como a prednisona ou o deflazacort. O médico deve estar atento a todas as complicações que estas drogas possam causar, a fim de diminuir os danos.
Várias outras drogas, como o metotrexato, a azatioprina, a ciclofosfamida, a ciclosporina, o micofenolato de mofetil, o rituximabe e a imunoglobulina, podem ser usadas a depender das manifestações e órgãos acometidos.
Ao longo do caminho, períodos de piora podem acontecer e devem ser prontamente tratados. É importante que o paciente encontre no seu reumatologista o acolhimento necessário durante todos os momentos. Este acolhimento trará a segurança e se reflete na aderência ao tratamento, fundamental para o sucesso.
Acesse a cartilha informativa para pacientes da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).